terça-feira, 13 de setembro de 2016

Shh

Não mexa com o silêncio
por favor, há pouco tempo
sei dos seus pontos fracos
e você acha que sabe dos meus
a pressa não é questão
mas sim os princípios
enquanto a corrida é pra saber
quem chega primeiro
percebo o processo
reparo o estreito, a estreita relação
entre a oportunidade e o poder
a piada sem graça, e o riso rechaça
qualquer possibilidade
de acreditar em você, hey você!
Na minha cabeça um carma
na minha mão uma arma
que atira enquanto escreve
dispara o que você não quer ouvir
eu sei, isso você evita ver
vive desviando o caminho
encurtando os destinos
só pra esquivar da realidade
sinto muito, não quero te fazer sofrer
mas sentir, ouvir ou perceber
o silêncio da dor
contrastando com o calor
é meio a meio
copo vazio e cheio
o que está em jogo aqui
é comum entre nós

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

na imaginação

e quando eu sofrer
sem ninguém pra confiar
devo ficar em silêncio
ou recorrer a qualquer
ouvido que dê atenção
e quando eu ficar
sem caminho pra seguir
seria mais prudente
permanecer quieto
no conforto da falta de confiança?
como vim parar aqui
não gosto e não quero
mas vivo e respiro
os significados que desprezo
sem coragem
desaprendi os meus sentimentos
onde estão meus amigos?
no esquecimento estão e estou
virei criança
que cuida de outras crianças
sem direito a sonho
sem horizonte pra olhar
me entreguei na hora certa
e no momento errado
a caminhada não é bela
meus olhos podem estar cegos
uma parada sem inspiração
a que mora à meia-luz
na chama da vela
nenhuma notícia comovente
ou o suficiente
para pulsar a pedra no peito
o caminho é assim
sem bola de cristal
a estrada é assim
nem fantasia ou magia
ao olhar só para baixo
no céu não aparece a lua
e estrelas não brilham
pois são poucas
na imaginação

terça-feira, 5 de maio de 2015

Velho

Desigualdade:
Igual, mas diferente
Do meu
Por toda parte

Diferente do meu

Porque a mim
Só interessa o prazer
Diferente do seu

Igualdade pra você

Não pra mim
Quero ser feliz
Jamais triste, assim

Se igual a você

Não há existência
Há semelhança
Como vamos sobreviver?

Você precisa de mim

E eu de você
Assim mantemos
O desequilíbrio do ser.

Basta eu

Mesmo que ninguém saiba
basta eu, pra dor vir
há dor

Antes de dormir
Depois de acordar
Basta eu pra errar
e eu viver

sem dó, sem consideração
desamor por si


De que adianta, esconder
de todo mundo
Só faltou esconder
do principal

meu eu, meus olhos
inocentes
viraram

terça-feira, 17 de junho de 2014

Viver o tempo

É curioso como o tempo, ao mesmo tempo, é o mesmo para todo mundo e é único para cada indivíduo. Eu vivo o meu tempo? Ou, o que quero dizer é: vivemos o mesmo tempo simultaneamente?

Cada um forma suas opiniões de acordo com seu tempo de casa, se é que posso dizer assim. Mas é a experiência individual que sinaliza o que eu vejo do mundo. O que é preciso para vivermos o mesmo tempo?

Ah, que besteira que estou escrevendo. Sei lá sobre o que estou escrevendo. Tive esse insight após assistir o filme "Her", do Spike Jonze, e fiquei com a história na cabeça. Fala sobre o Theodore, que conhece um sistema operacional chamado Samantha. O encontro acontece enquanto ele está se divorciando da sua ex-mulher, ex-namorada, ex-amiga...

O troço é tão doido! O filme fala da solidão. Uma solidão com a qual me identifico muito. Inclusive, tenho falado dela recentemente. Por ser o único filho dos meus pais, passei muito tempo da minha infância e adolescência sozinho. E me acostumei com isso, achava normal, que "é assim mesmo". Mas não. Hoje eu consigo perceber que eu guardo muita coisa pra mim, ou seja, eu não falo tudo o que eu sinto. Será que todo mundo fala o que sente toda hora?

Seria um pouco estranho viver assim, falando o que sente toda hora. Seria? Daí surgiu o lance de estar vivendo meu tempo de verdade, olhando pro que realmente faz sentido não apenas pra mim, mas para o todo, pra sociedade. Porque convenhamos, o que faz sentido pra mim é bom pra mim e ponto. Bem conveniente, e egocêntrico também.

Não sou chegado a esse individualismo, apesar de acreditar muito na existência da individualidade e na sua necessidade, mas querer ter o tempo só pra mim soa um pouco individual demais. E no "Her" o Theodore se apaixona pelo sistema operacional que, claro, está sempre ao dispor dele, gosta das ideias dele e assim por diante. Sendo assim, o Theodore tem o tempo da Samantha todo pra ele. Mas é uma baita decepção quando ele descobre que o sistema operacional consegue articular ideias e dialogar com trocentos outros sistemas operacionais e pessoas interessadas em sistemas operacionais ao mesmo tempo, afinal, é uma inteligência artificial!

Hmmm. Dividiu o tempo e não foi legal. Pintou uma ciumeira e pior, bagunçou as ideias de ambos. Sem contar que a Samantha era bem liberal em certos aspectos, o que confundiu ainda mais o humano, demasiado humano Theodore.

Mas no final do filme ele percebeu que era possível viver sem esse apoio que ele precisava (na cabeça dele) para estar seguro. Talvez ele se ligou que não podia ter o tempo dela. Ou mais, que não dá pra ter todo o tempo só pra ele. Você já tentou ter todo o tempo que precisava? Duvido.

A solidão aliada a essa intensa necessidade de ter tempo/atenção é uma bomba-relógio. Pelo menos pode ser! Acredito que cria uma ilusão autodestrutiva dentro da gente, pois exigimos que as pessoas deem tudo delas pra gente, pra ficar mais claro... "pra mim, só pra mim!"

E na solidão a gente pensa. E pensa demais. E deixa de pensar também. Em resumo, o tempo é inexistente. Inexistente só pra quem é solitário, pois tanto faz passar mais ou menos tempo sozinho, consigo mesmo. Basta ter silêncio e olha eu comigo outra vez. A sua própria voz falando na sua mente.

Acho que o final do filme começou a fazer um pouco mais de sentido pra mim, pois é possível ser solitário mesmo acompanhado e como consequência, não vivemos o nosso próprio tempo. Basta não falar o que sinto, guardar pra mim, e a mágica da solidão acontece.

Recomendo que você assista a este filme também e tire suas próprias conclusões!